A manchete rodou as redes nesta semana: "Governo autoriza início de testes de gasolina com 35% de etanol no Brasil."
E a pergunta chegou aqui na loja no mesmo dia: "Então vai ter E35 na bomba? Isso vai estragar o carro?"
Vamos por partes, porque a notícia tem duas camadas — e a mais importante não está na manchete.
Primeira camada: o E35 não está na bomba e não tem data para chegar. O que o governo publicou é um plano de testes.
Segunda camada, a que quase ninguém contou: esses testes vão medir justamente o que não foi medido antes de o E32 chegar aos tanques — o desgaste das peças no longo prazo. Quem reconheceu essa lacuna foi o próprio Tribunal de Contas da União, na semana passada.
📌 Em resumo: O Ministério de Minas e Energia publicou nesta sexta (18/09/2026) a portaria com o plano de testes da gasolina E35 (35% de etanol). A mistura não está liberada: a decisão depende dos resultados e de nova aprovação do CNPE. Enquanto isso, a bomba segue com E32, em vigor desde 1º de agosto. Os testes que embasaram o E32 mediram funcionamento (partida, aceleração, consumo, emissões) e não acharam problema relevante — mas não mediram durabilidade. Em 11 de setembro, o TCU manteve o E32 e registrou que não houve testes de durabilidade, corrosão e compatibilidade de materiais de longo prazo, deixados para a fase do E35. Para carro flex, nada muda na prática. A atenção fica com carros a gasolina antigos, importados não adaptados e motos — e com o carro que já está com a manutenção no limite.
Como chegamos até aqui
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Até julho de 2025 | Gasolina comum com 27% de etanol |
| 1º de agosto de 2025 | Passa para 30% (E30) |
| 14 de julho de 2026 | CNPE aprova 32% (E32), por 180 dias prorrogáveis |
| 22 de julho de 2026 | Ministério Público Federal pede na Justiça a suspensão do E32 |
| 1º de agosto de 2026 | E32 começa a valer nas bombas |
| 11 de setembro de 2026 | TCU mantém o E32, mas registra que faltaram testes de longo prazo |
| 18 de setembro de 2026 | MME publica o plano de testes do E35 |
| Fim de janeiro de 2027 | Vencem os 180 dias do E32 |
Em pouco mais de um ano, a gasolina comum ganhou 5 pontos de álcool. O E35 seria mais 3.
O que já foi testado — e o que não foi
O E30 e o E32 foram aprovados com base num estudo do Instituto Mauá de Tecnologia, feito no início de 2025. E vale ser justo com ele: o estudo foi sério e não pegou leve na escolha dos veículos.
Foram 16 carros e 13 motos, todos movidos só a gasolina — ou seja, justamente os que não têm a flexibilidade do motor flex. Carros de 1994 a 2024, do carburado ao turbo com injeção direta, incluindo híbridos, alguns com mais de 300 mil km rodados. Motos de 2004 a 2024, de 100 a 600 cilindradas.
O resultado, com E30 e E32:
- Consumo: variações entre 1,1% e 2,9%
- Dirigibilidade e aceleração: diferenças que o estudo classificou como imperceptíveis para o motorista comum
- Injeção eletrônica: os sistemas se adaptaram ao E32, inclusive em baixa temperatura
- Motos: aqui apareceu o sinal amarelo. Três modelos tiveram mais dificuldade de partida a frio com E32, e a Abraciclo, que reúne os fabricantes, registrou falhas na retomada de aceleração e na partida a frio em algumas motos
Traduzindo: no funcionamento do dia a dia, o carro quase não sente. Quem diz que o E32 faz qualquer carro falhar ou acender a luz da injeção está indo além do que o teste mostrou.
Agora, a frase que muda a leitura toda. O estudo não avaliou a durabilidade das peças — e o próprio Ministério de Minas e Energia admitiu isso ao aprovar o E32: "ensaios de durabilidade dos componentes serão realizados posteriormente, durante os estudos para a mistura de 35% (E35)".
O estudo mediu como o carro anda hoje com a mistura nova. Não mediu como bomba de combustível, bico injetor, mangueira e vedação ficam depois de 50 ou 100 mil km rodando com ela.
O que o TCU escreveu
Em 11 de setembro, o Tribunal de Contas da União julgou uma representação contra o E32. Manteve a mistura — mas deixou registrado:
"Os ensaios de consumo e de emissões foram realizados com a mistura de 30%, e não com a de 32%, e não houve testes de durabilidade, corrosão e compatibilidade de materiais de longo prazo."
E acrescentou que essas lacunas eram conhecidas do governo e das entidades do setor automotivo, e foram deixadas para a etapa de avaliação das misturas de 35% ou mais.
Em julho, o Ministério Público Federal em Minas Gerais já tinha ido além: entrou com ação pedindo a suspensão do E32 até que perícia independente comprove a segurança da mistura, e R$ 500 milhões em indenização por danos morais coletivos. Um dos argumentos do MPF: a especificação do E32 admite, na prática, até 34% de etanol sem validação técnica para esse teor.
Por que a durabilidade é a pergunta que importa
Um motor não quebra no teste de uma semana. Ele se desgasta em anos. E é aí que o etanol tem três características que preocupam os engenheiros:
1. Menos lubrificação. O etanol lubrifica menos que a gasolina. Nas palavras de Marcus Vinícius Aguiar, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA): "Se você tem menos lubricidade, você tem mais atrito." Mais atrito, ao longo do tempo, é mais desgaste em bomba, bicos e válvulas.
2. Corrosão e borrachas. Etanol ataca com mais facilidade peças metálicas e borrachas que não foram projetadas para ele. Carro flex já vem com esses materiais preparados. Carro a gasolina antigo e importado, não necessariamente.
3. Umidade. O álcool absorve água. Tanque com pouco combustível, carro parado e inverno úmido — como o nosso — aceleram esse processo.
Nenhum desses três aparece num teste de aceleração. Aparece na oficina, depois de dezenas de milhares de quilômetros.
O que o plano do E35 vai medir
É aqui que a notícia desta semana tem valor de verdade. Pelo que foi divulgado, o novo plano inclui, pela primeira vez, ensaios de durabilidade para uso prolongado, além de partida a frio, dirigibilidade, emissões e consumo. Estão na mesa de trabalho ANP, Instituto Mauá, Anfavea, Sindipeças, Abraciclo e Abeifa, com veículos e motos fabricados entre 1994 e 2024 e atenção especial a motores com injeção direta, motos carburadas e importados.
Ou seja: a pergunta certa finalmente vai ser feita.
O detalhe incômodo é a ordem dos fatores. O E32 já está nos tanques desde agosto. Enquanto o laboratório mede o desgaste com E35, a frota nas ruas está acumulando quilometragem com E32. Na prática, os carros da rua estão fazendo o teste de durabilidade antes do laboratório.
Isso não quer dizer que vai dar problema. Quer dizer que ninguém sabe ainda — nem para um lado, nem para o outro. E quem afirma com certeza que o E35 vai "destruir motores", ou que "não muda absolutamente nada", está afirmando mais do que os dados permitem.
Quem precisa se preocupar
| Tipo de veículo | Nível de atenção | Por quê |
|---|---|---|
| Flex (cerca de 80% da frota) | Baixo | Projetado para rodar com até 100% de etanol. No máximo, consumo levemente maior. |
| A gasolina, nacional, com injeção | Médio | Funciona bem nos testes, mas é o grupo cuja durabilidade ainda não foi medida. |
| Importado a gasolina não adaptado | Médio a alto | Calibrado para gasolina com bem menos álcool. |
| Carburado / carro antigo | Alto | Sem central eletrônica para corrigir a mistura; borrachas e metais mais antigos. |
| Motos antigas, carburadas ou importadas de alta cilindrada | Alto | Onde os testes já mostraram sinal de partida a frio difícil. |
Se o seu carro está nos grupos de atenção, os sintomas para ficar de olho e os cuidados práticos são os mesmos que já explicamos no nosso guia sobre a gasolina com 32% de etanol. A principal alternativa segue valendo: a gasolina premium mantém 25% de etanol.
Se você vai comprar um usado agora
A mudança no combustível também muda o que vale a pena perguntar antes de fechar negócio:
1. Sem motivo forte para o contrário, prefira flex. É a única tecnologia que não depende do resultado desses testes.
2. Vai de importado ou esportivo a gasolina? Pergunte pelo sistema de alimentação. Quando foram trocados bomba, filtro e velas? Os bicos foram limpos? Essas são as peças que mais sentem mistura com mais álcool.
3. Desconfie de carro que ficou muito tempo parado. Tanque baixo, parado por meses, com etanol na mistura, é receita para umidade no sistema.
4. Abasteça em posto de confiança. Com a mistura oficial já em 32% — e a especificação permitindo variação — o combustível adulterado passa do limite com muito mais facilidade.
E se a sua dúvida é mais ampla — se vale continuar na combustão ou olhar para um híbrido ou elétrico —, montamos um guia por perfil de uso justamente para essa conversa.
Nossa visão aqui da loja
A Covel está há mais de 40 anos vendo o combustível brasileiro mudar: gasolina com chumbo, álcool puro, a chegada do flex, E25, E27, E30 e agora E32. O padrão se repete: carro bem cuidado atravessa a mudança; carro com a manutenção no limite é o primeiro a reclamar.
Não dá para dizer hoje que o E35 vai estragar motor. Também não dá para dizer que não vai. O que dá para dizer é que a mudança cobra exatamente os itens que uma boa revisão olha: sistema de alimentação, velas, bicos, filtros e diagnóstico eletrônico.
Por isso todo seminovo nosso sai com revisão documentada — checklist, fotos e vídeos do que foi feito — e com garantia de até 2 anos em seminovos selecionados. Se você quer entender como o seu carro atual está nessa história, ou trocar por um que não te deixe preocupado com o que vem pela bomba, fala com a gente no WhatsApp.
Perguntas frequentes
A gasolina com 35% de etanol já está nos postos?
Não. O que o Ministério de Minas e Energia publicou em 18 de setembro de 2026 foi o plano de testes da mistura E35. A adoção depende dos resultados desses testes e de nova aprovação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Hoje, a gasolina comum vendida nos postos é a E32, com 32% de etanol.
Quando o E35 pode começar a valer?
Não há data. Os testes precisam ser concluídos e avaliados antes de qualquer decisão do CNPE. O que tem data é o E32: ele vale por 180 dias a partir de 1º de agosto de 2026, prazo que vence no fim de janeiro de 2027 e pode ser prorrogado.
O E32 foi testado antes de chegar às bombas?
Foi testado em funcionamento, mas não em durabilidade. O estudo do Instituto Mauá avaliou 16 carros e 13 motos movidos só a gasolina, fabricados entre 1994 e 2024, medindo partida, dirigibilidade, emissões e consumo. A durabilidade dos componentes ficou de fora — o próprio Ministério de Minas e Energia informou que esses ensaios seriam feitos depois, nos estudos do E35. Em 11 de setembro de 2026, o TCU manteve o E32, mas registrou que os ensaios de consumo e emissões foram feitos com E30 e que não houve testes de durabilidade, corrosão e compatibilidade de materiais de longo prazo.
Gasolina com mais etanol estraga o motor?
No carro flex, não há indicação disso: ele foi projetado para rodar com até 100% de etanol. Nos carros a gasolina, os testes de funcionamento não mostraram problema relevante, mas o desgaste de longo prazo ainda não foi medido. O etanol tem menos lubricidade que a gasolina e pode atacar borrachas e metais não preparados para ele — são esses os efeitos que o plano de testes do E35 vai avaliar.
Meu carro é flex. Preciso fazer alguma coisa?
Na prática, não. O carro flex se adapta a qualquer proporção de etanol. O que pode aparecer é um consumo um pouco maior, porque o etanol tem menos energia por litro — nos testes com E30 e E32, as variações de consumo ficaram entre 1,1% e 2,9%.
E quem tem moto?
Motos antigas, carburadas ou importadas de alta cilindrada merecem mais atenção. Nos testes do Instituto Mauá, três modelos tiveram mais dificuldade de partida a frio com E32, e a Abraciclo registrou pontos de atenção como falhas na retomada de aceleração. Para essas motos, a recomendação é a gasolina premium, que mantém 25% de etanol.
A gasolina premium também vai ter mais etanol?
Pela regra atual, não. A gasolina premium mantém 25% de etanol e é a alternativa indicada para carros a gasolina antigos, importados não adaptados e motos mais sensíveis.
Por que o governo quer aumentar o etanol na gasolina?
Os motivos oficiais são reduzir a importação de gasolina e fortalecer a produção nacional de etanol. O etanol também eleva a octanagem da mistura. A discussão não é sobre esses objetivos, e sim sobre a velocidade da mudança em relação aos testes de durabilidade.
Fontes: Ministério de Minas e Energia; Tribunal de Contas da União (decisão de 11/09/2026, relator ministro Antonio Anastasia); Instituto Mauá de Tecnologia (estudo técnico das misturas E30 e E32); Ministério Público Federal em Minas Gerais (ação civil pública de 22/07/2026); Abraciclo; Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).
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